mar, 26 2026
A foto era simples, mas a mensagem era gritante: um contracheque com o valor líquido de R$ 989. Em uma ação que pegou a opinião pública de surpresa, educadores de Minas Gerais pararam suas atividades no dia 4 de março de 2026. O motivo não é apenas o cansaço acumulado, é a inviabilidade financeira de manter uma categoria essencial funcionando na miséria. Denise Romano, Presidente do Sind-UTE/MG, assumiu a dianteira desse movimento, expondo documentos reais de funcionárias que garantem a merenda escolar.
O foco inicial das críticas recai sobre as cantineiras, profissionais vitais que muitas vezes são esquecidas nos debates sobre qualidade de ensino. Romano apresentou publicamente o holerite de uma auxiliar de serviço de educação básica (ASB). "O que entra no bolso para se pagar as contas é uma tragédia", disse ela à imprensa. Na prática, essas trabalhadoras recebem apenas o piso mínimo nacional, sem os complementos salariais prometidos há meses por uma manobra legislativa na Assembleia. É um caso extremo, mas reflete um problema sistêmico maior que afeta professores, diretores e servidores técnicos.
O abismo entre a demanda e a oferta
Quando olhamos para os números, a situação fica ainda mais clara. O sindicato calcula que perdeu-se cerca de 41,83% do poder de compra real entre 2019 e 2025. Isso significa seis anos de erosão salarial frente à inflação e aos custos de vida crescentes. Para entender a gravidade, precisamos olhar para o outro lado da mesa. O governo estadual, através de anúncios feitos em 2 de março pelo governador, propôs um reajuste de apenas 5,4% para todo o funcionalismo público.
A discrepância é chocante. Oferecer menos de 6% quando a inflação acumulada exige perto de 42% soa como ignorar a realidade econômica. O argumento do estado geralmente gira em torno da sustentabilidade fiscal, mas a resposta dos sindicatos é direta: escolas sem professores bem remunerados não funcionam. Denise Romano reforçou em entrevistas que Minas Gerais ocupa a última posição nos rankings de valorização docente. Ela citou especificamente o INEP, órgão ligado ao Ministério da Educação que cruza esses dados oficiais. Se o estado está lá embaixo, a pressão social tende a aumentar.
A cena política na Assembleia Legislativa
A batalha não acontece apenas nas ruas, mas também nos corredores do poder. No dia 11 de março, durante Audiência Legislativa Salarial 2026Assembleia Legislativa de Minas Gerais, representantes sindicais e parlamentares se enfrentaram. A deputada Beatriz Cerqueira foi a autora do requerimento nº 19.961/2026, buscando colocar a pauta formalmente em debate. O objetivo era claro: discutir a política de valorização da carreira e tentar destravar negociações que estavam travadas.
O governo enviou Caio Magno, subsecretário de gestão de pessoas, e Réel Soares da Silva para a reunião. As declarações indicam que as negociações estão longe de um consenso. Há relatos de que o processo de negociação sofreu atritos severos, deixando muitos educadores sem perspectivas claras de retorno às aulas ou ajuste salarial iminente. A campanha salarial de 2026, portanto, não é apenas sobre dinheiro, é sobre reconhecimento político de um setor fundamental.
Impacto no chão de escola
Muitos podem perguntar: quem paga essa conta agora? Quando ocorre uma greve dessa magnitude, o impacto imediato cai sobre o aluno. A logística escolar desmonta. Sem as cantineiras, não há merenda quente servida. Sem os professores regentes, as turmas ficam sem direção pedagógica. Romano chegou a usar uma camisa com a frase "sem ASB's a escola não funciona" durante sua aparição midiática. Isso não é retórica barata, é a constatação física do dia a dia nas redes estaduais.
Especialistas em gestão pública apontam que greves prolongadas podem afetar indicadores educacionais mensuráveis no longo prazo. O risco é ter alunos evadindo ou aprendendo menos porque a estrutura estatal simplesmente colapsou pela falta de recursos humanos motivados. O salário de R$ 989 para quem cuida da alimentação de milhares de crianças é, talvez, o símbolo mais forte dessa negligência administrativa.
Perguntas Frequentes sobre a Greve
Qual o valor do reajuste solicitado pelo sindicato?
O Sind-UTE/MG está pleiteando uma recomposição salarial de 41,83%. Esse valor reflete o acúmulo de perdas inflacionárias e desvalorização que ocorreram ao longo de seis anos, entre 2019 e 2025, segundo cálculos apresentados pela diretoria da entidade.
Quanto o governo ofereceu em resposta?
Em anúncio feito no início de março, o governo estadual divulgou um aumento generalizado de 5,4% para o serviço público. Esse número ficou muito abaixo da exigência dos trabalhadores, gerando impasse nas negociações e mantendo a paralisação ativa.
A greve afeta apenas professores?
Não. A mobilização inclui diversas categorias, incluindo gestores escolares, técnicos administrativos e auxiliares de serviços básicos (ASB). Muitas dessas profissões, como as cantineiras, tiveram seus salários expostos publicamente para ilustrar a gravidade da questão.
Por que o índice do INEP é importante nesse contexto?
O INEP é responsável por métricas nacionais de educação. Liderança sindical argumenta que Minas Gerais ocupa a última colocação nesses rankings, usando isso como prova concreta de que o estado carece de investimentos estruturais urgentes.